CELEBRAMOS O QUE CREMOS (I)

REFLEXÕES SOBRE A LITURGIA I

 

CELEBRAMOS O QUE CREMOS (I)

Algumas considerações sobre “Lex orandi, Lex credendi

 

Gostaria de, com este artigo, continuar o tema que desenvolvi no artigo sobre o crescimento litúrgico da liturgia e que pode ser lido aqui. Diz-nos o Catecismo da Igreja Católica (1124-1125):

 

A fé da Igreja é anterior à fé do fiel, que é chamado a aderir a ela. Quando a Igreja celebra os sacramentos, confessa a fé recebida dos Apóstolos. Daí o adágio antigo: «Lex orandi, lex credendi – A lei da oração é a lei da fé» (Ou: «Legem credendi lex statuat supplicandi – A lei da fé é determinada pela lei da oração», como diz Próspero de Aquitânia [século V]). A lei da oração é a lei da fé, a Igreja crê conforme reza. A liturgia é um elemento constitutivo da Tradição santa e viva.

É por isso que nenhum rito sacramental pode ser modificado ou manipulado ao arbítrio do ministro ou da comunidade. Nem mesmo a autoridade suprema da Igreja pode mudar a liturgia a seu bel-prazer, mas somente na obediência da fé e no respeito religioso do mistério da liturgia”.

 

O Catecismo é bastante claro neste ponto: nós, literalmente, celebramos o que cremos. Da mesma forma, a própria Liturgia entra como parte do tesouro da Tradição Católica. Cabe aqui ressaltar que Liturgia aqui é usada como sinônimo não só de Rito Litúrgico, mas dando a definição tradicional dela que seria “o culto público dado a Deus, pela Igreja”. Os Ritos, que são parte da Liturgia, fazem parte deste grande tesouro que temos na Tradição, e isso não dizemos apenas do Rito Romano, mas os diversos outros Ritos que estão, ou estiveram, em uso na Igreja Católica durante seus mais de vinte séculos de existência.

Porém, termos a Liturgia como parte da Tradição, como expressão viva da Tradição, gera-nos uma situação complexa hoje. Quando todos falam de “criatividade”, “inovação” e “participação ativa” (especialmente na Santa Missa) a Liturgia parece ser a área mais parece aberta as novas experiências de todos aqueles que se “preocupam” em fazer a Assembléia “participante”. Porém, normalmente, isso acaba gerando um completo desrespeito as normas da correta celebração do Rito e tornando-o não apenas flexível, como alterável e mutável ao bel-prazer daqueles que estão envolvidos na Celebração Litúrgica.

O Catecismo explica-nos que a situação não é exatamente essa. Se a Liturgia (e o Rito, em conseqüência) é parte constituinte da Tradição e exprime o que acreditamos, fazendo um exercício de lógica, se mudamos arbitrariamente a Celebração Litúrgica adicionando ou retirando algo, não apenas estamos desrespeitando a Tradição, mas o que é pior, correndo o risco de modificar o que se crê.

Explico a afirmação acima que não apenas parece, mas, definitivamente, é bastante séria. Aqueles que estão envolvidos com a Liturgia, direta ou indiretamente, devem zelar pela boa Celebração Litúrgica para evitar que os fiéis passem a enxergar o Mistério Celebrado de forma diferente, ambígua ou, literalmente, errada. Reclama-se, atualmente, muito da falta de senso de sagrado que as pessoas têm (ou vêm adquirindo), porém, ninguém parou para observar o que diz o Catecismo em relação a Lex orandi e a Lex credendi. Parece que ninguém repara que o Catecismo expressa claramente que ninguém (e este “Ninguém” deveria estar grifado e escrito com letras garrafais) tem o direito de modificar o que estamos celebrando. A lei é absolutamente universal: os leigos não podem inventar novas formas de Celebração mesmo fazendo parte da Pastoral Litúrgica, os sacerdotes não podem celebrar como desejam introduzindo ou retirando orações, os bispos devem zelar pelo correto cumprimento das normas litúrgicas e mesmo o Papa pode não modificar a Liturgia a seu gosto, mas, somente quando a mudança está de acordo com a Tradição e, supõem-se, apenas quando haja necessidade para tal.

Se pensarmos que ao mudarmos a Liturgia podemos estar contribuindo para uma mudança na forma de crer daquela Assembléia, passaríamos a ter maior preocupação com aquilo que fazemos (ou deixamos de fazer) na Celebração Litúrgica. Sempre que pensarmos que podemos estar contribuindo para uma forma das pessoas enxergarem os Mistérios pela Liturgia bem ou má celebrada, lembraremos que temos uma responsabilidade grande.

Alguns irão argumentar, como disse acima, que apenas a celebração do que pede o Missal Romano é insuficiente para a “participação ativa” da Assembléia e aí se pede mais “criatividade” e “inovação”. Vamos delinear os fatos por partes nestes pequenos artigos, começando pela idéia da “participação ativa” da Assembléia.

A idéia de participação ativa da Assembléia é anterior ao Concílio Vaticano II (veio da idéia de participação frutuosa, já difundida na primeira metade do século XX) e, infelizmente, é má interpretada. Normalmente a participação ativa na Missa é vista como o contrário do que acontecia na Forma Extraordinária do Rito Romano, que normalmente, se chama de Missa em latim (e o termo, como já vimos, é impróprio, leia mais aqui), com os fiéis com suas devoções privadas e o sacerdote celebrando em uma língua que o povo não entendia. Hoje a situação inverteu-se. Entende-se participação ativa pela atividade que os fiéis realizam na Missa, isso, levado a extremos, leva a um complicado excesso de atividade exterior do fiel, sem uma devida interiorização. No Motu Proprio Summorum Pontificum o papa Bento XVI exprime como essa consideração de ruptura entre o que havia antes do Concílio e o que há hoje não são duas realidades opostas, mas iguais e erra aquele que diz que houve uma ruptura e que o antigo é ruim e o novo é bom, se fosse assim, porque o papa iria colocar o que colocou abaixo? (o que está entre parênteses é comentário nosso)

 

Art. 1 – O Missal Romano promulgado por Paulo VI é a expressão ordinária da “Lex orandi” (“Lei de oração”), da Igreja católica de rito latino (A Missa que celebramos normalmente). Contudo o Missal Romano promulgado por São Pio V e novamente pelo beato João XXIII deve ser considerado como expressão extraordinária da mesma “Lex orandi” e gozar do respeito devido por seu uso venerável e antigo (se o Rito pré-conciliar fosse ruim ou ultrapassado ele teria que ser abrogado, ou seja, proibido de uso). Estas duas expressões da “Lex orandi” da Igreja não levarão de forma alguma a uma divisão da “Lex credendi” (“Lei da fé”) da Igreja; são, de fato, dois usos do único rito romano (o ponto central é esse: há um só rito romano em duas formas, ambos expressando a Doutrina Tradicional – lembrando que Tradicional vem de Tradição – da Santa Igreja Católica).

 

Podemos dar alguns exemplos desta má interpretação da participação ativa: levanta-se mão e batem-se palmas para expressar alegria e solenidade, porém, sem se explorar os devidos aspectos solenes da Missa como o uso do incenso, de um coro com melodias clássicas ou o canto sacerdotal da Missa; canta-se toda e qualquer parte da Missa com melodias “moderninhas”, às vezes alterando o que é Ordinário e não pode ser alterado (como as letras do Glória e do Sanctus), sem se dar o devido lugar para o silêncio interiorizador do Mistério Celebrado; faz-se dezenas de procissões sem sentido com cartazes, objetos, livros e esquece-se de valorizar as procissões que já são previstas pelo Missal (a de entrada, das Oferendas e final); além de entregar a Assembléia orações que são exclusivas do sacerdote (como o Por Cristo e a Oração da Paz)diminuindo o papel sacerdotal do padre, aumentando exageradamente o da Assembléia, e, de certa forma, desviando a atenção daquele que age como persona Christi, pessoa de Cristo, no Altar; da mesma forma, algumas vezes a Celebração Litúrgica coloca tanto os fiéis como centro que ela acaba, infelizmente, reduzida a um mero encontro de irmãos esquecendo-se que os fiéis reúnem-se lá para rememorar e atualizar o Sacrifício Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Participar tornou-se sinal de agir exteriormente, enquanto, por exemplo, a participação ativa que poderia se desenvolver de forma melhor com as catequeses mistagógicas (catequeses sobre a Liturgia) e seu aprofundamento nos Mistérios Celebrados deixou quase completamente de existir. Prioriza-se o exterior e esquece-se do interior. Faz-se os fiéis se movimentarem, dançarem, baterem palmas, mas esquece-se que é no interior, primeiramente, que fazemos nossa adesão ao Mistério Celebrado e que, da mesma forma, amamos apenas o que conhecemos. Normalmente, o desconhecimento do que e do porque das Celebrações acaba gerando uma participação exterior que não prioriza a vivência de fé do Batizado (afinal, ele não sabe o que celebra, nem porque o faz, por isso, apenas faz, então, uma adesão formal a sua religião que acaba gerando um superficialismo nas ações pessoais que, ao contrário, deveriam servir para demonstrar ao mundo que somos católicos chamados a ser sal da terra e luz do mundo) e tampouco aprofunda sua fé (sem saber o que se celebra, como se poderá adquirir os frutos desta Celebração?) o que é um passo para que as pessoas percam, literalmente, o sentido do que é sagrado e como se deve tratá-lo.

Não iremos tratar neste artigo dos dois outros problemas que enfrenta a Liturgia (“criatividade” e “inovação”), nem sugeriremos soluções, porque este artigo não se esgota aqui, mas, abre esta seqüência de reflexões em relação à Liturgia. No próximo artigo pretendemos terminar a relação destes problemas e, ao final, sugerir alguns pontos para implementar e corrigir pontos falhos que parecem ser mais gerais e comuns em relação à Liturgia nos dias atuais.

 

SILVA, Michel Pagiossi. Movimento Litúrgico: “CELEBRAMOS O QUE CREMOS (I)”: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE “LEX ORANDI, LEX CREDENDIDisponível em http://www.movimentoliturgico.com.br/Portal/index.php?option=com_content&view=article&id=96:reflexoes-sobre-liturgia-i-celebramos-o-que-cremos-i&catid=38:cat-catequese&Itemid=53. Desde 09/03/2009.

2 pensamentos sobre “CELEBRAMOS O QUE CREMOS (I)

  1. “Celebramos o que Cremos”, o artigo aborda de uma forma irretocável, um assunto que vem ocorrendo, infelizmente, em nossas Santas’ Missas. Estamos em nome do “modernismo”, perdendo a noção exata do Sagrado. Músicas em desacordo com a liturgia, orações de mãos dadas na hora do Pai Nosso e cantada, com os sons estridentes de guitarras, violões, e até baterias, durante quase toda a Santa Missa, interferencias muitas das vezes alheias por parte dos fiéis, parando a Liturgia. Após a Comunhão, o Sagrado Silencio é esquecido pois continuam a cantar e a irritar. As vestes dos fiéis em desacordo com o respeito que devemos ter para com Nosso Senhor. Essas aberrações vem ocorrendo com muita frequencia em nossas Igrejas. O que precisamos urgentemente em nossas igrejas, são cursos de liturgias, para que aprendamos o verdadeiro significado da Santa Missa. Onde estão os órgãos, a música sacra dos cantos gregorianos, que nos ajudam durante a missa, tornando a Sagrada Liturgia, uma oferta sincera á Deus, foram esquecidas? Ou agora o que vale é levantar aos mãos pro alto, gritar, berrar, cantar músicas em desascordo com o sagrado. Como diz o Frei Anselmo, do Convento de Santo Antonio no Rio de Janeiro, isso tudo o que está acontecendo é “fervura” e não “fervor”.
    Torno a repetir, que artigo “Magnífico”, vou imprimí-lo e apresentá-lo na minha Paróquia, a fim de que retornemos ao verdadeiro rumo da Sagrada Liturgia. Amém.

  2. “[…]orações de mãos dadas na hora do Pai Nosso e cantada[…]

    Grato pelo comentário, e feliz por ter gostado do texto de Michel Pagiossi (www.movimentoliturgico.com.br).
    Apenas saliento que, desde que não se altere a letra e que se tome cuidado com o ritmo, o Pai Nosso pode ser cantado.
    Disponha de qualquer texto que necessitar.

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