QUATORZE PASSOS SIMPLES PARA MELHORAR A LITURGIA (I)

“Tédio durante a Liturgia é algo que, de tempos em tempos, todo católico sente e isso nunca é justificável”

Movimento Litúrgico.com.br 

Começamos a publicar hoje um artigo sobre a música litúrgica já antigo, americano, porém, absolutamente adaptável a realidade brasileira. São quatorze formas de se melhorar a liturgia da Santa Missa, seguida depois por uma seqüência de outras pequenas dicas e algumas informações retiradas da Instrução Geral do Missal Romano. Começaremos publicando os seis primeiros passos, os outros e a conclusão serão publicados na semana que vem!

Acompanhem e comentem!  (nota do sítio)

 

Não importa quão mundana é a arquitetura do templo, quão apagada a homilia ou quão ruim a música, o que está acontecendo no altar é um sacrifício maravilhoso que nos concede a Graça para nossa salvação. Esta realidade deve ser suficiente para prender nossa atenção.

Ainda assim, o tédio entre os fiéis é uma realidade e que a boa liturgia pode ajudar a combater. Muitas paróquias tentam fazê-lo inventando várias novas formas de incitações a “participação”: cartazes enormes e brilhantes, tentativas forçadas de criar um ambiente otimista de amizade e comunidade, grandes bacias de incenso carregadas por ministros e homilias em formas estranhas.

As tentativas de melhorar a Liturgia, normalmente, acabam por recair sobre a música e, quase sempre, na inclusão de mais e mais instrumentos além de ritmos retirados diretamente da música popular. O fundamento para isso é simples. Os liturgistas frustram-se porque as pessoas não se entusiasmam com a religião como se entusiasmam com as cantoras “pop” e os “clips”, e eles concluem que necessitam, então, mais pirotecnia musical para fazer a diferença.

Mas, estas idéias normalmente saem pela culatra porque os argumentos que as sustentam são defeituosos desde o princípio. O sentimento de comunidade é bom e desejável, mas se a liturgia não oferece um conjunto de elementos que conduzirá a oração e a contemplação dos Mistérios Eternos, ela falhou no seu primeiro objetivo estético.

De qualquer maneira, católicos não podem competir com a comunidade evangélica local no sentido de inspirar um “sentimento de comunidade”. A última pesquisa Gallup aponta que a participação dos católicos semanalmente nas Missas (cerca de 45% dos católicos o fazem) continua a cair, e pela primeira vez escorregou para trás dos protestantes (que está em 48%). Aqueles que deixaram o Rito Romano atual incluem os que se afastaram para as formas antigas de Liturgia ou os Ritos Orientais e aqueles que, literalmente, deixaram de participar.

Existem muitas razões para isso (demográficas, culturais e teológicas) e os liturgistas não merecem toda a culpa. Ainda que o declínio do desejo de se assistir a Missa coincida com a diminuição da solenidade celebrativa e o avanço de formas de arte mundanas na liturgia sendo a popularização de música o ponto mais óbvio. As pessoas podem dizer que adoram dar as mãos, dançar ou bater os pés ao ritmo da música na Missa, mas isso parece não ser exatamente correto e, possivelmente, mina a lógica e a razão de uma devoção mais estável. De fato, entre os anos de 1981 e 1989 o Centro de Estudos Católicos Notre Dame de Vida Paroquial concluiu que as tentativas de fazer as pessoas cantarem – especialmente aquelas tentativas que usavam guitarras – aumentavam o tédio.

Existem, porém, formas para quebrar a rotina e inspirar firmeza e comprometimento pessoal com a Liturgia. O que segue são quatorze passos simples para reparar a debilidade que marca muitas liturgias católicas dos Estados Unidos. Os liturgistas profissionais são resistentes a elas devido ao preconceito de tudo que lembraria uma sensibilidade pré Concílio Vaticano II. Ainda assim, as sugestões seguintes nasceram da experiência e da convicção que o alvo primário da liturgia é a ajudar a uma reflexão interior.

As sugestões abaixo são simples e sem custos. Elas não precisam ser postas em prática todas de uma vez. Pequenas mudanças, semana a semana, farão uma diferença gigantesca ao longo do tempo.

 

1.                  Abaixe o Volume

Hoje em dia é difícil de imaginar, mas, a Liturgia cristã passou um período de 1950 anos sem microfones, teclados, amplificadores, mixers, técnicos de som e auto-falantes em formato surround-sound. Naqueles dias, os manuais comuns de liturgia enfatizavam a “proclamação” e a difusão da voz. Cantores usavam microfones apenas se fossem artistas.

Além de usados apenas para ajudarem na audição da Assembléia, infelizmente, é comum ver que as metas desses aparelhos e atitudes é fazer a Liturgia ainda mais barulhenta. Os resultados são, freqüentemente, ensurdecedores criando uma espécie de estupor nos fiéis. As pessoas sentem como se algo estivesse sendo imposto a eles. Muito dessa idéia vem em reação a tradicional sotto voce – a voz que poderíamos chamar de privada – que os modernos liturgistas consideram como silêncio ou sussurro, pois o povo não conseguia ouvir o que aquele que dizia, especialmente o sacerdote, estava dizendo. Ironicamente, os mestres mundiais da propaganda perceberam que a voz baixa aumenta a atenção daquele que ouve.

A virtude do silêncio foi redescoberta nos últimos anos, com numerosos pronunciamentos do papa João Paulo II e oficiais do Vaticano enaltecendo sua habilidade de transmitir sentido em um mundo barulhento. A contraparte musical ao silêncio não é a música popularesca, mas sons distantes de contemplação. Abaixe os microfones e cante como se apenas a voz humana fosse responsável para preencher todo o ambiente. Isto diminuirá a presença eletrônica na liturgia e aumentará a presença de Deus, criando uma ferramenta para melhor O adorarmos.

 

2.                  Cantos como introdução

Se você já foi a um culto evangélico, você sabe que os dez minutos anteriores ao serviço são dedicados a integração social. Para os católicos, ao contrário, é um tempo de oração e preparação. Música de órgão é comum durante este tempo (NT: no Brasil costuma-se ensaiar os cantos que serão usados na Missa), mas imagine algo diferente: um canto simples em latim, cantado calmamente, sem afetação, com silêncio entre os versos. Os sons simples inspiram meditação. Uma objeção comum é que o povo não entende latim. No fundo, isso não importa porque o momento não é de ensino ou pedagogia, ao contrário, é tempo de reflexão, de começar a ouvir a voz dos anjos que nos fala por uma língua diferente. O sentido do texto cantado é comunicado pela seqüência das notas. Os sons sagrados nos lembrarão que entrar em uma igreja é entrar em um lugar sagrado.

 

3.                  Diminua o número de avisos

Em uma era onde o mundo toma a maior parte de nosso tempo, fazer alguns avisos tornou-se uma necessidade pastoral. A Missa Dominical normalmente é a única oportunidade em que o sacerdote tem para informar seu rebanho assuntos relacionados à paróquia e a vida da comunidade. Poucos são afortunados o suficiente em irem a Missa diariamente, um número menor ainda tem seus filhos em boas escolas católicas e já se foram os dias em que a paróquia ou igreja era o centro da vida no bairro ou na pequena cidade.

Sendo esta a realidade, é bastante sábio seguir de perto as regras da Instrução Geral do Missal Romano, colocando os avisos depois da Liturgia Eucarística e antes da Despedida, onde eles têm menos chance de interromper a estrutura de orações desenvolvida pela liturgia. Deixar que aconteçam declarações dos cantores ou ainda de outros antes da Procissão de Entrada nada tem a ver com o rito e se parecem mais com locuções feitas para se ganhar a atenção da Assembléia. Avisos não devem ser feitos antes de a Missa começar, salvo aqueles relacionados a assuntos absolutamente necessários ao entendimento do povo da celebração em si ou outros assuntos prudentemente sugeridos pelo sacerdote.

A Missa não começa porque os cantores levantam-se e proclamam onde, quando e como ela acontece. A Missa começa quando o padre entra na igreja, com ou sem o cruciferário, librífero, leitor ou diácono.

 

4.                  Escolha cantos fáceis e tradicionais para a procissão de entrada

Os primeiros hinos cristãos foram os Salmos, textos que já tinham mais de 500 anos quando usados pela primeira vez e as melodias usadas foram herdadas das tradições judaica e grega. O mesmo princípio se aplica hoje: os hinos devem carregar uma longa tradição de fé, seja em latim ou português, na forma ou no estilo. Música litúrgica que imita a música secular deve ser deixada fora da igreja.

Hinos facilmente cantáveis com métrica e cadência familiar unirão os membros da congregação juntos em adoração e oração e na experiência do corpo inteiro do Cristo, em todos os lugares e todo o tempo. Música litúrgica ligada apenas aos tempos presentes não cumprirão essa função. Mais importante ainda, as visões e os sons da Missa, ainda que comum a todos, devem, como função última, apontar a consciência individual para o Mistério que se desdobra no Altar.

  Os hinos usados na Procissão de Entrada podem ser, também, cantados apenas pelo coral, por exemplo, uma peça digna de polifonia que levará os fiéis a abaixar seus livros ou folhetos e prestar atenção ao celebrante e os ministros caminhando para o Altar carregando o crucifixo. As pessoas não devem estar com seus olhos ocupados e perder esta bela visão. De qualquer forma, liturgistas fazem uma grande confusão acreditando que as pessoas vêm a Missa apenas porque querem cantar ou que a participação ativa do fiel se resume a isso.

 

5.                  Cante o Kyrie

Uma das mais antigas e mais facilmente reconhecidas artes da Missa não é em latim, mas em grego: o Kyrie.Ele tem se mantido, desde há muito tempo, como um símbolo vivo da união entre a Cristandade Oriental e Ocidental.  E ainda que haja um número grande de peças musicais cantadas no Rito Romano, o “Senhor, tende piedade de nós”, é, na maioria das vezes, rezado e não cantado pelo sacerdote e respondido pelo povo. Esta bela passagem do Rito Penitencial começa e termina em poucos segundos.

O Kyrie parece ter um papel diminuto na Liturgia atualmente. Baseado nisso poderíamos questionar: seria muito pedir que se tomasse um pouco mais de tempo nesta bela expressão penitencial cantando-a? Se a participação ativa no canto é o que desejamos, o Kyrie pode facilmente ser cantado por qualquer sacerdote independente de seu talento musical e respondido pelos fiéis. Ele pode ser cantado na forma original, em grego. Todos conhecem as palavras. Introduzindo uma variação musical a cada Tempo Litúrgico os cantores e liturgistas trariam variedade para dentro da Missa. No contexto da Missa ele também serve para lembrar-nos o porquê nós nos reunimos como comunidade e nos chamamos católicos (universais).

 

6.                  Escolha um Glória simples

Existem centenas de versões do Glória a disposição hoje e isso nos leva a pensar então porque as paróquias acabam usando versões “pop” do Glória, cheias de apetrechos e de falsa exuberância. Uma solução simples para inverter essa situação é ordenar o canto para uma versão que possa ser simples e facilmente aprendida e cantada por todos. Uma versão simples, em português, pode abrir caminho em direção as sensibilidades tradicionais e fazer muito para restaurar a dignidade a beleza deste canto de louvor.

Um Glória em latim é ainda o que podemos melhor chamar de eterno e continua imbatível em seu propósito de louvar a Deus na Liturgia. Se sua paróquia é uma daqueles onde mesmo o latim mais leve é temido, como é o caso de muitas paróquias por todo o país, há ainda algo que pode ser feito. Tentar usar o Glória em latim pode ser parte de seu plano reformista, mas sempre é melhor começar em uma escala de reforma menor. A Congregação pode sentir-se oprimida quando encara algo grande como o canto do Glória. O latim virá a seu tempo, porém, deve-se manter trabalhando e encaminhando a Assembléia nessa direção.

Um Glória em português é suficiente para as necessidades da comunidade na maior parte das vezes. Porém, cabe lembrar que, a Instrução Geral do Missal Romano permite que o Glória seja cantado pelo coral sozinho. Você pode querer exercitar esta opção de cantar um Glória em latim em alguns dias festivos apenas, ou parar com todo tipo de tentativa de gregoriano e passar diretamente a uma versão polifônica (clássica ou contemporânea) se houver tempo de ensaio disponível e, claro, os recursos permitirem.

 

 

TUCKER, Jeffrey e ZINNER, Arlene, “QUATORZE PASSOS PARA SIMPLES PARA MELHORAR A LITURGIA (I)” tradução realizada com permissão dos autores por Movimento Litúrgico. Disponível em http://www.movimentoliturgico.com.br/Portal/index.php?option=com_content&view=article&id=106:quatorze-formas-simples-para-melhorar-a-liturgia-i&catid=59:cat-artigos-musicas&Itemid=56. Desde 18/04/2009.


 NT (nota do tradutor): o termo é intraduzível “Donahue-style homilies”.

 NT: Gallup é um grupo respeitado de mídia americano, da mesma forma, os dados são de 2004.

 NT: mesmo sendo um artigo estrangeiro, todos os passos são válidos universalmente.

 NT: É o estilo de voz que o sacerdote usa na Forma Extraordinária do Rito Romano, por exemplo, ao pronunciar o Cânon. Os circundantes do Altar conseguem distinguir parte do que é dito, mas, a grande maioria do povo não.

Um pensamento sobre “QUATORZE PASSOS SIMPLES PARA MELHORAR A LITURGIA (I)

  1. fico feliz em saber que tem um site desse tipo talvez se colocassem sugestões para celebração semanalmente ajudaria muito as equipes de celebração ver a possibilidade amei o que padre Kleber f. Danelon escreveu fiquem com Deus.

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