Doce Hóspede da Alma – Santifica-nos!

Por Ana Maria Bueno Cunha

“Caríssimos, como são maravilhosos, como são preciosos os dons de Deus! Vida imortal, esplêndida justiça, verdade liberta, fé intrépida, temperança santa: tudo isto nossa inteligência concebe. O que será então que se prepara para aqueles que O aguardam? O Santíssimo Artífice e Pai dos séculos é o único a conhecer a sua santidade e beleza. Portanto, a fim de participarmos dos dons prometidos, empreguemos todo empenho em sermos contados no número dos que esperam” (São Clemente I – Papa e Mártir da Igreja – séc. I – AQUINO, Felipe – Alimento Sólido – Editora Canção Nova – Cachoeira Paulista – SP – p. 23). “Sede perfeitos como o Vosso Pai é perfeito” (Mt 5,48) “Conta-se que um cônego de Limoges, o Abade Guimabaud, falecido em 1944, tomara parte numa peregrinação a Roma quando ainda jovem sacerdote, tendo sido apresentado ao Papa Leão XIII pelo Vigário Geral, da forma seguinte: “Santitíssimo Padre, aqui está um sacerdote que leu todas as suas Encíclicas” – Qual prefere? Perguntou o Papa ao Abade – “A que trata do Espírito Santo” – Ah! – continuou Leão XIII – o Espírito Santo… O divino desconhecido!…” (PLUS, Raul – Em União com o Espírito Santo – Quadrante – Introdução). Graças a Deus pode-se dizer que hoje o Espírito Santo não é mais o divino desconhecido, mas infelizmente podemos dizer que muitos de nós desconhecemos toda riqueza de suas ações nas almas, que consiste em educá-las para a santidade. Saibamos bem que Deus nosso Pai, reservou para Si a santificação das almas que Ele tanto ama, já que as criou para Ele. E o faz de uma forma ordenada, silenciosa e eficaz, para levar a termo Seu desejo de elevar o homem à condição a que foi criado primeiramente, com toda riqueza de dons e dotes sobrenaturais. Deus quer que sejamos perfeitos, assim como Ele é perfeito, nada mais que isso. Deus é quem faz os santos. A santificação é obra do amor e este amor é o próprio Deus que nos convida e age em nós para nos convertermos e nos santificarmos, portanto a alma resoluta que busca na docilidade deixar-se conduzir pelo Espírito, terá como recompensa o encontro com Deus. Deus quis que o homem fizesse parte de Sua família, tornando-o um filho com direito à Sua herança. E para que isso não fosse apenas uma formalidade, deu-nos a participação de Sua vida divina, com uma qualidade criada e real, que nos faz participar já aqui na terra das luzes da fé, para um dia possui-Lo no céu pela visão beatífica de Si mesmo, amando-O como Ele é. Para tanto, no dia do nosso Batismo, firmou-se entre Deus e nós um verdadeiro contrato. Neste Sacramento da Igreja, pelas suas águas regeneradoras e pelo Seu poder, efetivamente a Santíssima Trindade se derramou sobre nós: “O amor do Pai e do Filho foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado.” (Rm 5,5). Esse Amor é um amor substancial, imutável e eterno. No Batismo recebemos os frutos da redenção operada por Cristo na Cruz. Ali somos purificados da mácula original, da falta da graça e dos bens perdidos por Adão, nosso pai terrestre, além de recebermos nossa adoação filial. E tudo isso acontece pela ação da pessoa do Espírito Santo. Aquele que o Santo Padre chamou de divino desconhecido, e tanto quanto Jesus, tem seu calvário na medida em que não é conhecido, amado e sobretudo querido pelos homens, que Deus escolheu para serem seus filhos adotivos. Por Ele nos tornamos livres e por Ele decidimos por Deus. Ele nos vivifica, por isso é o autor da vida nova que o Senhor nos oferece. Jesus disse: “Eis que faço novas todas as coisas”. Queridos, pelo Espírito fazemos parte desta maravilha de Deus. Sua obra magnífica consiste em nos fazer amar a Deus, nos liberta do amor do mundo e nos leva a nos conformarmos com Sua santa vontade. É a Ele que devemos buscar para podermos cumprir nosso fim, vivendo na luta contra o pecado, perseverando até o dia final. Logicamente é a Santíssima Trindade que buscamos para sermos santos, mas esta obra é dada ao Divino Espírito por atribuição, já que nas obras do amor, Ele se faz presente e atua eficazmente. Mas é Deus todo, que opera em nós o Seu querer e executar. O Espírito Santo, portanto, é o educador de nossas almas, de incomparável sabedoria e amor. Mestre na arte de conduzi-las e plasma-las de acordo com Sua vontade, Ele faz o que quer e quando quer, pois é o educador gratuito e liberal, e age porque é bom, não dependendo do mérito de ninguém. Só pede que esta alma se deixe conduzir por Ele, em função de sua natureza e segundo suas disposições, para levá-la ao acabamento total na graça e à qualidade de adultos na fé. Ele é o princípio da santidade e nos faz voltar para Deus e quer nos unir a Ele de forma habitual e permanente. Ele nos purifica e nos dá firmeza, fazendo com que desejemos sempre mais a ascenção ininterrupta para Deus, para fazer de nós, imagens perfeitas de nosso Pai. Saibamos bem que é apenas no Espírito Santo que devemos esperar a santidade, que não nos será negada se a buscarmos diligentemente a cada dia, lutando tenazmente contra o pecado que nos afasta de Deus, pois nos diz as Escrituras que a alma que põe a confiança no Senhor, nunca será confundida (cf. Sl 30,2). Como disse, Deus é quem faz os santos, portanto é Ele quem conduz ao que Ele mesmo nos propõe. É preciso que cada um conheça quando e de que maneira Ele age, para com o coração disponível viver esta vida de forma a subir sempre à presença do Senhor. Nossa vida é uma caminhada para o alto, e Deus mais do que ninguém quer nos ajudar nesta subida. Nosso fim consiste em vê-Lo, viver nEle e para Ele, mas podemos experimentar já aqui esta vida de filhos, com toda a fecundidade que ela nos oferece. Já digo de antemão que não depende dos sentimentos, mas do se deixar conduzir pelo Espírito Santo que nos foi dado. Saber, pela razão, de que maneira Ele nos conduz, para aceitarmos agradecidos Seu amor e Sua transformação. Ora, se o Espírito nos foi dado, nos pertence, e se nos pertence pode fazer com que nos tornemos santos, porque Ele é santo! Nossa limitação nunca alcançará esta misericórdia inefável e infinita! Quanta vantagem tivemos quando o Senhor disse que era preciso que Ele fosse. Ficaríamos sem Ele, é certo, mas receberíamos o grande presente que nos seria concedido. O Espírito Santo é nosso amigo, nosso Consolador e nossa força nas provações da vida presente e quer levar a cabo na vida de cada um de nós esta transformação maravilhosa que a cada dia nos transforma tal qual Ele é, e para qual fomos criados. Mas quantos tem desperdiçado por desconhecimento esta graça bendita? Quantos tem se cansado na caminhada buscando se santificar com suas próprias forças, que são nada diante da força de Deus, desprezando Aquele que realmente santifica? Quantos tem sentido sua vida vazia, crendo que tem desagradado a Deus, crendo que tem perdido tempo em orações infrutuosas, se sentindo como que inúteis diante de todo bem que sabem que Deus os convida a viver? Assim já dizia Pierre Charles: “Senhor, por que, para subir até Vós, não temos a mesma coragem com que galgamos montanhas? Por que havemos de temer a escalada do Vosso Sinai, para ir falar-Vos e contemplar-Vos face a face? Quando penso na imensidade do esforço sinto-me esmagado. Como farei para atingir o inacessível? Ah… Depois que descestes até à humanidade, há um caminho aberto para subir até Vós” (Generosidades – Quadrante – São Paulo – 1991 – pag. 52) Mas como de fato o Espírito Santo age em nós? Segundo Tanquerey, “ao comunicar-nos uma participação da Sua vida, nos deu o Senhor todas as graças necessárias para a conservar e acrescentar. Ele por amor, ainda nos deu nessa Sua participação, a graça santificante onde somos modificados por Ele, de uma forma acidental, na nossa natureza e capacidade de ação, não nos torna Deus, mas deiformes, semelhantes a Ele, capaz de atingi-Lo pela visão beatífica, quando esta graça for transformada em glória e de O ver face a face, como Ele se vê a Si mesmo. Participamos da natureza de Deus, Ele vem a nós com sua graça maravilhosa! Jesus não contente em reparar, pela Sua satisfação, a ofensa feita a Deus e de nos reconciliar com Ele, mereceu-nos todas as graças que havíamos perdido pelo pecado e outras ainda. A Graça Santificante, que por si já diviniza e nos aperfeiçoa, vem com seu cortejo de virtudes infusas e dons do Espírito Santo, que colaboram mais ainda com este novo homem, o que se move e cresce com a ajuda de graças atuais. Atuais e abundantes e que podemos crer até mais abundantes do que no estado se inocência, em virtude da palavra de São Paulo: ”ubi abundavit delictum, superabundavit gratia” – onde abundou o pecado, superabundou a graça – para que produza atos sobrenaturais, deiformes e meritórios de vida eterna, já que este, como dissemos, é o fim a que o homem foi criado e elevado como filho de Deus.” (A Vida Espiritual – Explicada e Comentada – de Adolfh Tanquerey – Editora Permanência – Quinta Edição – Anápolis – 2007). Entendamos pois, que o homem em estado de graça, todos os seus atos, são realizados com ajuda de Deus. É Ele que opera em nós e por nós. Por isso, qualquer ação que fazemos tem méritos de vida eterna. São Paulo, na carta aos Colossenses, no cap. 3, vers. 17, nos diz que “tudo quanto fizermos, por palavras ou por obras, que façamos em Nome de Jesus Cristo dando por Ele, graças a Deus Pai.” Nossa caridade, nosso amor, nossos atos, nenhum deles são desperdiçados, pois o fazemos em Deus e para Deus. Ao abrirmos nossos olhos, saibamos que a menor de nossas ações devem ser oferecidas a Deus e devemos pedir que tudo naquele dia seja feito com Sua ajuda santíssima. Assim, nosso coração se torna um coração descansado, já que nos unimos a Deus que tudo realiza. Santa Tereza disse uma vez, que se tivermos o desejo de fazer algo para Deus, Ele nos ajudará a fazê-lo. O Senhor se compraz nisso. Nossa vida há de ser uma eterna oração se feita nesta união, por isso, temos paz em Deus. É certo que, mesmo depois de nosso Batismo, estamos ainda de posse da concupiscência e das misérias da vida, mas temos agora a força necessária para combater e vencer as tentações, ficamos robustecidos nas virtudes e podendo, portanto, alcançar muitos merecimentos. O Senhor põe diante de nossos olhos os exemplos de Jesus com Sua Cruz e estimula-nos a lutar. Já as graças atuais, que Ele nos mereceu, facilitam nossos esforços e vitórias. A medida que lutamos as concupiscências vão diminuindo, a nossa força de resistência vai aumentando e por fim chega a hora que muitas almas privilegiadas, são de tal modo confirmadas nas virtudes que, embora tenham liberdade para pecar, não cometem falta alguma de propósito deliberado. Ah! Maravilhosa graça que nos enche de dons e virtudes, que nos permitirão levar a cabo atos sobrenaturais, para atingir a santidade que nos pede o Senhor! Deus nos faz a cada dia chegarmos mais perto de Sua beleza e pureza. As virtudes infusas nos capacitam a agir de maneira sobrenatural, de julgar as coisas à luz da revelação divina e agir de acordo com o que a fé nos mostra. Dispõe a nossa inteligência e a nossa vontade para a união com Deus, mas não nos confere por si mesmas a facilidade de pensar e agir segundo as luzes da fé. Por isso é necessário que elas sejam reforçadas por hábitos moralmente bons, que se adquirem por atos correspondentes, realizados com intensidade e de maneira repetida. A ajuda das graças atuais que o Senhor não nega às almas que as pedem com o coração desejoso de amá-Lo e de servi-Lo, entra em ação, nos capacitando a chegarmos ao termo final. E para receber estas graças atuais, são imprescindíveis os dons do Espírito Santo, que são disposições ou hábitos sobrenaturais que faz com que a alma elevada já à vida sobrenatuaral pela graça santificante, se torne capaz de receber estas inspirações divinas. Os dons portanto, intervêm necessariamente em todo ato sobrenatural. O Espírito que agora habita em nós, nos ajuda primeiramente a rejeitarmos de todas as formas o pecado, depois ilumina nossa mente para querermos e buscarmos as coisas do alto (“a sua unção ensinar-vos-á tudo – 1 Jo 2,27). Nos ajuda a obedecermos os mandamentos e põe em nós o desejo da vida eterna, fazendo-nos assemelhar a Cristo. Aos Efésios Ele disse pela boca de São Paulo: “Fostes assinalados com o Espírito da promessa, que é o penhor da nossa herança” (1,14). Ele é, com efeito, a garantia da vida eterna. A alma cheia de Deus, conduzida pelo divino Espírito, eficazmente, pensa, julga e age em todas as circunstâncias como fariam Cristo nosso Senhor ou Sua Santíssima Mãe, e aquela que assim se conduz, já se conduz santamente. Ela age como por instinto e com toda naturalidade, preocupada unicamente em amar a Deus, que é a caridade perfeita. Diz o Catecismo n. 2005: “Sendo, como é, de ordem sobrenatural, a graça escapa nossa experiência e só pode ser conhecida pela fé. Não podemos, pois, basear-nos nos nossos sentimentos nem nas nossas obras, para daí concluirmos que estamos justificados e salvos. No entanto, segundo a palavra do Senhor, que diz: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7, 20), a consideração dos benefícios de Deus na nossa vida e na vida dos santos oferece-nos uma garantia de que a graça de Deus opera em nós e nos incita a uma fé cada vez maior e a uma atitude de pobreza confiante” Encontramos uma das mais belas ilustrações desta atitude na resposta de Santa Joana d’Arc a uma pergunta capciosa dos seus juízes eclesiásticos: “Interrogada sobre se sabe se está na graça de Deus, responde: “Se não estou, Deus nela me ponha: se estou, Deus nela me guarde”.” (Santa Joana D’Arc: Dito: Procès de condannation, ed. P. Tisset (Paris, 1969) p. 62.) Tanquerey nos diz que não é qualquer impulso interior vago e difuso para agir de determinada forma que provém do Espírito Santo. É preciso antes que este seja nitidamente para realizar um ato bom, que a nossa consciência bem formada e informada aprove como estando perfeitamente de acordo com a lei de Deus naquelas circunstâncias concretas. Para discernir se a moções provêm dos dons, devemos aplicar o que nos ensinou o Senhor: “Pelos frutos os conhecereis” (Mt 7,20). São necessárias, via de regra, anos de oração regular e de exames de consciência para atingir um certo grau de conhecimento próprio e o que seria muito salutar é se encontrássemos um bom diretor espiritual. (A Vida Espiritual – Explicada e Comentada – de Adolfh Tanquerey – Editora Permanência – Quinta Edição – Anápolis – 2007) É evidente que, se Deus operou tantas maravilhas para nos comunicar uma participação da Sua vida, devemos, da nossa parte, corresponder às suas amorosas antecipações, aceitar com reconhecimento essa vida, cultivá-la e preparar-nos assim para essa bem-aventurança eterna que coroa nossos esforços na terra. É indubitável que Deus, que nos criou livres, respeita a nossa liberdade, e não nos santificará contra a nossa vontade; mas não cessa de nos exortar a que nos aproveitemos das graças que nos outorga tão liberalmente ”diuvantes autem exhortamur ne in vacuum gratiam Dei recipiatis – Exortamo-vos a que não recebais a graça de Deus em vão” A vida que o Senhor nos dá é maravilhosa e conhecê-la nos faz querê-la, desejá-la, não importando quanto esforço temos que empreender. Nossa alma sedenta suspira pela fonte das águas e se refresca nesta fonte. Podemos já viver aqui o céu de forma antecipada, se de fato nos unirmos a Deus em oração, nos Sacramentos da Igreja, na participação da Santa Missa, nos nossos menores trabalhos e até na solidão. Seremos como nos pediu o Senhor, luz e sal neste mundo e através de nossa conduta santa, o mundo poderá ver a presença de Deus e poderão reconhecê-Lo para prestar-Lhe também o louvor que Ele merece. Aliás, o mundo espera a manifestação dos filhos de Deus. O mundo espera nossas orações, nossos atos e nossas palavras, e será através de nós que poderão chegar à verdade que salva a todos – isto só é possível pela ação do Espírito Santo em nós. Quando uma alma se enamora de Deus tem sempre o desejo de estar cheia de Suas graças, as buscando diligentemente nos Sacramentos da Penitencia e Eucaristia, e esta alma descansada rejubila-se e poderá cantar quando chegar a hora derradeira: “Que alegria quando me vieram dizer – Vamos subir à casa do Senhor” Ali haverá festa e nós seremos os felizes convidados do Banquete do Cordeiro. Coragem, só temos uma vida pra viver de fé (Santa Terezinha) e ela valerá a pena quando O vermos tal qual Ele é. (Sl 122)

Coloquemos nisso nossa esperança, e ela não engana!

© Copyright Sociedade Católica __________ Para citar: CUNHA, Ana Maria Bueno – Apostolado Sociedade Católica: Doce Hóspede da Alma – Santifica-nos!. Disponível em http://www.sociedadecatolica.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=479 desde 21/04/2009

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