Quatorze formas simples para melhorar a Liturgia (II)

Tédio durante a Liturgia é algo que, de tempos em tempos, todo católico sente e isso nunca é justificável

Hoje publicamos a segunda e última parte do artigo sobre a importância da música litúrgica e as formas de melhorá-la em sua comunidade.

7. Conserte o salmo
São João Crisostómo recorda-nos que os cristãos cantavam os salmos incessantemente e que esta foi das primeiras partes da Sagrada Escritura a ser traduzida para o latim. Sua centralidade no culto cristão não pode passar despercebida. O desenvolvimento do canto do Saltério é central no desenvolvimento de toda e qualquer música cristã e da música em si mesma. O que aconteceu com o canto do Salmo hoje? Muitas versões de salmos publicadas hoje soam como pequenas miniaturas de baladas de jazz e estas mesmas versões são impressas em livros de missa para o uso dos fiéis que passam a acreditar que elas são versões oficiais da Igreja (o que elas não são).
A meta seria a restauração do Saltério em latim (usando o Graduale ou o Simplex), mas isso simplesmente não é viável na imensa maioria das paróquias hoje, nem existe uma versão solene ou mais elaborada para o português das formas latinas gregorianas a disposição. O que é possível é que o Salmo poderá ser cantado em uma forma melódica drasticamente reduzida do gregoriano, sem intervalos ou saltos. Uma linha simples consistindo em apenas algumas notas é uma forma apropriada de transição para o uso de tons prontos para os salmos ou mesmo algo mais elaborado. A primeira vista o abandono das linhas impressas da música pode parecer algo intimidante, às vezes beirando o assustador. O melhor método para fazê-lo é sentir a necessidade de solenidade e deixar o ouvido guiar você.
O Salmo deve começar não com um instrumento, mas com uma voz confiante. A introdução deve ser fácil o suficiente para ser repetida pelo povo. Os versos, em si, não devem ser cantados pelo coral todo (o que deixaria o som estranho), mas, de novo, por uma única voz que deve sempre ter em mente que aquilo antes de uma música é um texto cantado. Isso significa que o cantor deve pronunciar claramente as palavras e modular a voz de uma forma a usar, também, espaços.

8. O Ofertório deve ser um tempo de preparação
Durante o Ofertório, o Pão e o Vinho são trazidos ao Altar para preparar-nos para a Oração Eucarística e a Consagração. A música, portanto, não deveria obscurecer o que se seguirá, mas, antes apontar para o sacrifício vindouro e preparar-nos mental e espiritualmente para tal.
Algo silencioso e belo (de novo, empregando a voz humana) é a melhor solução. Faça com que a congregação cante um hino simples, começando com acompanhamento, se necessário, mas deixando um ou dois versos finais sendo cantados a capella. O órgão ou teclado pode ser uma forma de incentivar as pessoas a cantar, mas com o correr do tempo, a congregação irá tornar-se mais confiante se permitida experimentar a beleza e o Mistério de suas próprias vozes juntando-se em preparação para a festa.
O Ofertório é também um tempo apropriado para familiarizar as pessoas com os grandes hinos de nossa fé em sua forma latina. Durante o ano, a meta pode ser cantar apenas uma pequena parcela deles como: Ave Maria, Jesu Dulcis, Ave Maris Stella, Ubi Caritas, Attende Domine, Ave Verum, e cantos próprios do Tempo como o Veni Creator e o Regina Caeli. Com repetições suficientes eles podem ser aprendidos por qualquer um. Eles, realimente, devem tornar-se partes da vida de fé novamente.

9. Reduza e simplifique o “Mistério da Fé” e o “Grande Amém”
Normalmente, quando usados na forma cantada, estas duas partes são aquelas musicadas pelas grandes editoras. Elas costumam ter uma orquestração Hollywoodiana, serem exagerados e aparecerem repentinamente, sem nenhum aviso. Dissonante na melhor das hipóteses, o seu drama, destilado em cinco segundos, pode competir com o mistério da própria Consagração. Cantos simples, realizados pela Congregação de uma maneira que ele estenda-se da própria oração silenciosa são mais apropriados para estes momentos.
O “Mistério da Fé” nunca esteve separado da Consagração na Forma Extraordinária, então, não há um precedente que poderá ajudar-nos a iluminar nossos caminhos. O que pode ser feito, porém, é reduzir o “Mistério da Fé” a uma simples frase não repetida e sem acompanhamento. Da mesma forma o “Amém”, ele não precisa ser grande e pomposo, duas notas bastam.

10. Encurte a Saudação da paz
Sejamos honestos: esta parte na Liturgia, antigamente extremamente formal e reservada apenas aos diáconos e subdiáconos, pode ser bastante desconcertante atualmente. Os minutos depois da Consagração simplesmente não parecem ser os mais adequados para saudar os amigos com um cordial “Olá” ou um beijo. O coral ou banda deve fazer algo em relação a isso. Não deixem a Saudação da Paz continuar indefinidamente, comece, com alguma rapidez, o canto do “Cordeiro de Deus”. Tenha certeza, muitas pessoas ficaram extremamente gratas[i]!

11. Comece o canto de Comunhão (um simples hino em latim já funciona) logo após o sacerdote comungar
O que fazer enquanto estamos esperando para levantar-se e ir comungar? Nas paróquias não há outra escolha: assistir o sacerdote celebrante dar Comunhão a uma espécie de elite leiga que foi selecionado como “Ministros da Eucaristia”. Devemos ter em conta que isso não é uma visão das mais prazerosas, então, seria bom introduzir logo uma música como forma de retirar a atenção do povo do Altar e, da mesma forma, já levá-lo a oração interior que o momento demanda. A Instrução Geral do Missal Romano recomenda que o canto de Comunhão comece assim que o padre comungar, logo, assim deve ser. E apenas pela banda ou pelo coro.

12. Não force a Assembléia a cantar no momento da Comunhão
Várias tentativas foram feitas ao longo dos anos para fazer com que as pessoas cantassem na fila da Comunhão ou já comungando. Mas, normalmente, elas foram falhas. É um fato simples que as pessoas não querem cantar durante a Comunhão. Este parece ser o maior exemplo de como a “participação ativa” significa qualquer outra coisa que cantar uma música durante a Missa e que, infelizmente, vemos como sendo entendido atualmente. Neste caso, especificamente, significa receber o Santíssimo Corpo do Senhor. Esta é a hora perfeita para o coro ou a banda desenvolver o senso do canto de uma forma sagrada, quieta e de forma bela. De novo, canto e polifonia são os melhores, mas não subestime a idéia de uma peça para órgão apenas, sem as vozes. Este momento deve ser de oração e contemplação, não de barulho! A maioria das pessoas irá ficar satisfeita e feliz de serem deixadas sozinhas.

13. Permita o silêncio depois da Comunhão
Um dos aspectos estéticos mais marcantes do Rito Romano é quão rápida e repentinamente ele termina! Apenas se passaram uns poucos minutos entre a o Momento da Comunhão e a despedida. Este é um tempo excelente para o silêncio: sem músicas, anúncios, benção de crianças… Apenas oração!

14. Não tente um adeus estimulante
A Missa termina com as palavras “Ide em paz, que o Senhor vos acompanhe”, logo, nada do que vem a seguir disso deve obscurecer o que veio antes. O canto final, que não é obrigatório, pode, claro, ser exuberante. Porém, muitas paróquias têm problemas em lidar com o excesso de conversas ao fim da Missa, pois muitas pessoas vão saudar-se e conversar um pouco logo após o término da Celebração, logo, o Canto Final acaba apenas agravando o problema fazendo com que os cantores tenham que cantar cada vez mais alto enquanto as pessoas elevam a voz para poderem conversar e se ouvirem mutuamente. Se a meta do Canto Final for enviar as pessoas para o mundo com a sensação vivida de tudo aquilo que aconteceu anteriormente, o melhor seria que este canto recordasse à calma e silenciosa potência da Liturgia anterior.

Sugestões mais elaboradas

Existem outros métodos para aumentar o senso de solenidade da Liturgia, o que, no geral, significa criar imagens e sons que lembrem que as pessoas estão em uma igreja. Os tapetes podem ser deixados de lado para eliminar os problemas relacionados à propagação do som dos microfones. A polifonia tradicional é uma forma riquíssima de adicionar certa “textura” a uma Liturgia dominada apenas pelos cantos e hinos. Começar um coral de crianças é um investimento boníssimo para as gerações futuras de cantores e pode, com alguma certeza, dispersar a idéia de que o latim é anacrônico ou impossível de ser cantado. Cartazes colados nas paredes podem ser retirados e substituídos por arte de boa qualidade e imagens da iconografia cristã.
Todas essas alterações ajudam a solidificar a Liturgia na vasta gama das experiências cristãs, além de transmitir a idéia e a sensação de que o simples individuo é parte de algo muito maior que uma simples comunidade ou paróquia!
A Liturgia Católica, por sua natureza e estrutura, não pode tornar-se uma imitação de formas populares (ou popularescas) de entretenimento, da mesma forma que um show de rock não é um bom meio de induzir as pessoas a um senso penitencial e de presença do sagrado. A incessante tentativa disto por diversas vezes pode ter o efeito, não intencional, de fazer com que a própria assembléia se sinta, de certa forma, manipulada. Da mesma forma, e ainda mais importante, o clamor para mais e mais inovações litúrgicas e a criatividade sem limites é totalmente desnecessário.
A Instrução Geral do Missal Romano é um guia poderoso para se conseguir solenidade na Missa, além do que, temos 2000 anos de tradição histórica (que são mais que suficiente) para lembrar-nos que isso é uma verdade. Maiores provas para tal hipótese virão quando a Liturgia começar a dar-nos pequenos sinais e lembrar-nos por que estamos lá.

Lembretes para os músicos tirados da Instrução Geral do Missal Romano

Propósito
O Apóstolo exorta os fiéis, que se reúnem à espera da vinda do Senhor, a que unam as suas vozes para cantar salmos, hinos e cânticos espirituais (cf. Col 3, 16). O canto é sinal de alegria do coração (cf. Atos 2, 46). Bem dizia Santo Agostinho: “Cantar é próprio de quem ama”. E vem já de tempos antigos o provérbio: “Quem bem canta, duas vezes reza”. (n. 39)

Objetivo
[Todos os elementos da Missa] deva exprimir a estrutura hierárquica e a diversidade dos ministérios, deve também formar uma unidade íntima e orgânica que manifeste de modo mais claro a unidade de todo o povo santo. Por outro lado, a natureza e a beleza do lugar sagrado, bem como de todas as alfaias do culto, devem ser de tal modo que fomentem a piedade e exprimam a santidade dos mistérios que se celebram. (n. 294)
Estilo
Em igualdade de circunstâncias, dê-se a primazia ao canto gregoriano, como canto próprio da Liturgia romana. De modo nenhum se devem excluir outros gêneros de música sacra, principalmente a polifonia, desde correspondam ao espírito da ação litúrgica e favoreçam a participação de todos os fiéis. (n. 41)

Assembléia
Dado que hoje é cada vez mais freqüente o encontro de fiéis de diferentes nacionalidades, convêm que eles saibam cantar em latim pelo menos algumas partes do Ordinário da Missa, sobretudo o símbolo da fé e a oração dominical, nas suas melodias mais fáceis. (n. 41)

Coro/Cantores
Entre os fiéis exerce um próprio ofício litúrgico a schola cantorum ou grupo coral, a quem compete executar devidamente, segundo os diversos gêneros de cânticos, as partes musicais que lhe estão reservadas e animar a participação ativa dos fiéis no canto. O que se diz da schola cantorum aplica-se também, nas devidas proporções, aos restantes músicos e de modo particular ao organista.
É conveniente que haja um cantor ou mestre de coro encarregado de dirigir e sustentar o canto do povo. Na falta da schola, compete-lhe dirigir os diversos cânticos, fazendo o povo participar na parte que lhe corresponde (n. 103-104).

Partes da Missa
O canto de entrada é realizado alternadamente pelo coro e a Assembléia, ou, da mesma forma, pelo cantor e pelo povo, ou inteiramente pelas pessoas, ou pelo coro sozinho. Já que o Kyrie é um canto pela qual os fiéis clamam ao Senhor e imploram sua misericórdia ele é, normalmente, cantado por todos, ou seja, pelas pessoas e com o coro ou cantor tomando parte nele. O Glória é entoado pelo sacerdote ou, se necessário, pelo cantor ou pelo coro, mas ele é cantado por todos juntos, ou pelo povo alternando com o coro ou pelo povo sozinho. É preferível que, ao menos, a resposta do Salmo responsorial seja cantado pelo povo (o resto pode ser por um cantor). O Aleluia constitui um rito ou ato nele mesmo. Ele é cantado por todos em pé, dirigidos pelo coro ou cantor. A súplica do Agnus Dei é, via de regra, cantado pelo coro ou cantor com a congregação respondendo. Enquanto o padre está recebendo o Sacramento, o canto de Comunhão iniciar-se-á. O canto continua enquanto o Sacramento é administrado aos fiéis. Ele é cantado seja pelo coro sozinho ou pelo coro ou cantor com o povo (vários).

Os autores
Arlene Oost-Zinner e Jeffrey Tucker são diretores da Schola Cantorum Santa Cecilia em Auburn, Alabama.

TUCKER, Jeffrey e ZINNER, Arlene, “QUATORZE PASSOS PARA SIMPLES PARA MELHORAR A LITURGIA (II)” tradução realizada com permissão dos autores por Movimento Litúrgico. Disponível em http://www.movimentoliturgico.com.br/Portal/index.php?option=com_content&view=article&id=107:quatorze-formas-simples-para-melhorar-a-liturgia-ii&catid=59:cat-artigos-musicas&Itemid=56. Desde 25/04/2009.

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